Sindicato por quê? Sindicato pra quem?
Antes de mais nada, cabe ressaltar que sindicato é uma organização necessária! O breve texto, que convido colegas do país inteiro a ler e a refletir a respeito será, sobretudo, uma resposta às duas perguntas que intitulam o mesmo e que justificarão, penso eu, a afirmação que fiz na frase inicial.
Os
sindicatos atuais têm sua origem em algo que hoje poderíamos chamar de
"fraternidades" ou "irmandades", que na Inglaterra da
Revolução Industrial (século XIX) tomaram a presente forma. Essas palavras
(fraternidade e irmandade) traduzem, inclusive muito bem, a essência do
movimento a que nos destinamos a discutir aqui. Um das funções precípuas dos
sindicatos é precisamente fornecer ajuda mútua entre seus integrantes, como
costuma ocorrer em uma família, entre irmãos. Um sindicato é, portanto, antes
de qualquer outra coisa, a união de trabalhadores para conferirem ajuda mútua.
Esse sentimento, cuja origem pode parecer, em um primeiro momento, longínqua e
descolada da conjuntura atual, não poderia estar mais próximo do que se define
hoje por sindicato. A legislação que rege a formação e as funções dos
sindicatos no Brasil atual (sobretudo o Decreto-lei 1402/1939 e o Decreto-lei
5452/1943) incluem deveres como o desenvolvimento da “solidariedade das
profissões”, bem como “manter serviços de assistência judiciária a seus
associados”, além de fundar e manter escolas, hospitais e outras instituições
de assistência social. Resta claro, portanto, que o sindicato é uma instituição
de assistência social a seus associados. Em bom português, uma instituição de
auxílio mútuo. Como se pode notar, suas funções são ligadas a estratégias de
defesa das condições de existência dos seus filiados. Se houve a necessidade de
se criar uma instituição para a defesa de condições básicas é sinal de que “o
mercado” não foi capaz de trazer o bem estar material mínimo para os
trabalhadores. Foi necessária, portanto, a criação de uma instituição que
garantisse o que não era proporcionado de bom grado. Nesse bojo, o sindicato
surge também como uma instituição de organização da luta coletiva por direitos
e interesses comuns. Ela surge da clara percepção de que os patrões é que
controlam o valor pago pelo trabalho, controlam o acesso ao trabalho, controlam
o tempo e a forma do trabalho. Isso os coloca, obviamente, em uma posição de
superioridade, que só pode ser contraposta pela união daqueles que sofrem esse
tipo de pressão, aqueles que dispõem unicamente da sua força de trabalho, que é
ofertada no mercado pelo menor preço. Ter o controle sobre a força de trabalho
(impondo-lhe um preço, inclusive) coloca nas mãos dos patrões um poder enorme
sobre os trabalhadores.
O
patrão sempre pôde (e, sob certas circunstâncias, ainda pode) também decidir
não pagar os dias paralisados na luta por condições mais dignas de trabalho.
Foi justamente quando os trabalhadores se viam obrigados a trabalhar 12 horas
por dia, lado a lado com crianças que faziam o mesmo trabalho e recebiam menos
(durante a Revolução Industrial), que essas instituições surgiram, pois se
mostraram essenciais, como a única forma de fazer frente a todo o poder
centrado nas mãos dos patrões. Naquele momento sindicatos arrecadavam recursos
inclusive para poder alimentar os trabalhadores nos dias em que eles decidissem
parar e lutar por melhores condições. Foi através das ações daqueles sindicatos
que a jornada de trabalho foi reduzida e o trabalho infantil foi sendo
paulatinamente restringido, sobretudo nas minas nas fábricas e em diversos trabalhos
noturnos (CARTWRIGHT, 2023). Assim os sindicatos se constituíam como
instituições de assistência mas, também, como formas de organização de luta
coletiva.
Hoje
em dia, sindicatos organizados e fortes (com muitos membros ativos) têm um
papel muito similar. Uma diferença é que hoje a batalha se dá sobretudo no
campo judicial. Os patrões têm dinheiro e influência pra contratar bons
advogados e declarar greves ilegais, além de impor pesadas multas aos
trabalhadores que lutam por seus direitos. Só um sindicato forte pode sustentar
uma batalha judicial contra o Estado e arcar eventualmente com as multas (por
vezes, milionárias) impostas. Um exemplo recente foi caso do sindicato dos
metroviários de São Paulo que, em novembro de 2023, teve uma decisão judicial
(o aparato do Estado sendo utilizado contra os trabalhadores) considerando a
greve abusiva e determinando um multa de meio milhão de reais por
descumprimento. Vale lembrar que os sindicatos dos professores do estado e dos
funcionários da Sabesp se uniram àquela greve, demonstrando a importância da
união na luta (PORTO, 2023).
Em
um contexto como esse, acima expresso, fica claro também como o sindicato, em
muitos casos, funciona como um escudo contra a mão pesada do estado. Quando ela
desfere o seu golpe, atinge o sindicato, não o trabalhador que não teria
condição nenhuma de enfrentar algo de tal magnitute. Quando mencionamos isso,
nos referimos apenas às ações na esfera macro. Há, no entanto, várias outras
ações importantes realizadas, por assim dizer, na esfera micro. Nessa esfera
uma das principais funções do sindicato é assessorar seus filiados sobre os
seus direitos e fazê-los ser cumpridos. Isso, na prática, se configura em
prestar assessoria jurídica. É mais uma seara em que estamos sempre em desvantagem.
Mesmo dentro do setor público, onde tudo deve ser mais regulado, ocorrem
arbitrariedades e, novamente, a disputa é contra o Estado. Para citar apenas um
exemplo, na universidade onde trabalho, uma docente aprovada em concurso para
cargo efetivo teve que brigar na justiça para se manter na vaga porque (pasmem)
a própria universidade entrou na justiça contra ela. Foi mais uma luta da
assessoria jurídica do sindicato contra o Estado. Foi penosa e custosa (custou
a saúde mental de uma colega que precisou ser afastada por problemas
decorrentes desse assédio). Quantos milhares de reais a mais essa colega,
recém-concursada, teria que gastar (sem dispor dos recursos) com esse processo
se não fosse sindicalizada? Ações como essas (que demandam garantia de direitos
perante o contratante) ocorrem diuturnamente nos mais diversos órgãos públicos
e privados, sendo constantemente amparadas pelas assessorias jurídicas dos
sindicatos.
Outro
exemplo evidente da importância e dos ganhos palpáveis advindos das ações dos sindicatos
foi a greve dos roteiristas nos EUA, também em 2023. Após meses de greve eles
saíram vitoriosos, tendo conseguido aumentos e regulação de certas áreas da
produção (G1, 2023), mesmo estando no país em que o individualismo impera e
onde, pasmem, os sindicatos tem se tornado cada vez mais fortes (SANCHES,
2023).
A
essa altura, creio que tenham se tornando mais claros os ganhos reais,
históricos e imediatos das ações dos sindicatos, como também o que representa
um sindicato. Sindicato é para a garantia de direitos e para lutar por melhores
condições de trabalho. Dito isso, creio que não haja como discordar da
importância de tal instituição, sobretudo para uma classe de trabalhadores que
só foi reconhecida como tal em termos legais no ano de 2018 (Lei 13.653/2018) e
que ainda precisa de muita regulamentação. A situação precária a que muitos dos
colegas tem que se sujeitar a trabalhar para conseguir sobreviver não pode ser
normalizada. Ser obrigados a passar 8 h em pé, sem um local sombreado para
descanso e sem um banheiro próximo, com atraso de salário, diárias baixas e
ameaças do tipo “se não quiser, tem mais 10 querendo”, impondo uma condição
humilhante a quem trabalha na arqueologia, não pode ser considerado normal. Além disso, contratações irregulares estão na ordem do dia. Sim,
arqueólogo/a não pode ser contratado como MEI (Micro Empreendedor Individual),
pois essa modalidade não se destina a profissionais liberais, que é o caso do
trabalhador amparado pela Lei 13.653/2018. Não é por acaso que a nossa profissão não aparece no rol das atividades
listadas na categoria MEI. Contratações irregulares e que não garantem direitos
básicos ao trabalhador, tais como 13º salário, férias, fundo de garantia, entre
outros, não deveriam ser a regra, mas a exceção. No entanto, sem luta, esse
estado de coisas não se alterará. Patrões não abrirão mão da exploração e da
precarização do trabalho - em detrimento da saúde física e mental de
trabalhadores – de bom grado.
Com
esse breve texto creio que tenha ficado claro que sindicato é, entre outras
coisas, pra quem tem que trabalhar pra ganhar o suado sustento, pra quem
precisa de um salário digno e de condições adequadas de trabalho, pra quem não
é rico e pode pagar advogados caríssimos, ou cooptar o Estado. Sindicato é pra
defender os direitos de quem trabalha, contra uma força que, não raro, toma a
forma do Estado. Sindicato é pra defender os trabalhadores dos abusos de
patrões. Em suma, para responder às perguntas que intitulam o texto;
1-Sindicato é necessário, porque é a principal forma de união contra os abusos
perpetrados contra quem trabalha. 2-Sindicato é para toda a classe trabalhadora
da arqueologia e para toda classe trabalhadora em geral.
Referências
BRASIL, Decreto-lei Nº 1.402, de 5 de julho de
1939. Regula a associação em sindicato. Brasília, DF:
Diário Oficial da União, 1939.
BRASIL, Decreto-lei Nº 5.452, de 1
de maio de 1943. Aprova a Consolidação das Leis do Trabalho. Brasília, DF:
Diário Oficial da União, 1943.
BRASIL, Lei Nº 13.653, de 18 de
abril de 2018. Dispõe sobre a regulamentação da profissão de arqueólogo e dá
outras providências. Brasília, DF:
Diário Oficial da União, 2018.
CARTWRIGHT, Mark. 2023. O Trabalho Infantil na
Revolução Industrial Britânica. In: World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2216/trabalho-infantil-na-revolucao-industrial-britanic/. Acessado em 28/02/2024.
G1. 2023. https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2023/09/27/fim-da-greve-dos-roteiristas-quais-foram-as-conquistas-deles-apos-148-dias-de-paralisacao.ghtml. Acessado em 29/02/2024.
PORTO, Douglas. 2023. Governo de SP diz que
greve do Metrô, CPTM e Sabesp é “ilegal e abusiva” https://www.cnnbrasil.com.br/politica/governo-de-sp-diz-que-greve-do-metro-cptm-e-sabesp-e-ilegal-e-abusiva/. Acessado em 28/02/2024.
SANCHES, Mariana. 2023. Por que EUA vivem auge
de sindicalismo e greves em 50 anos. https://www.bbc.com/portuguese/articles/cg3z0zzn08wo. Acessado em
29/02/2024.
Gustavo Neves de Souza
Atualmente é professor adjunto do
curso de Arqueologia, na Universidade Federal do Vale do São Francisco
(Univasf) e vice-presidente da Sessão Sindical dos Docentes da Univasf
(Sindunivasf), batalhando pela construção de um sindicato para a categoria,
para melhorar as condições na luta por direitos e condições de trabalho para
quem atua no campo da Arqueologia.
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