Construção das relações de trabalho e inserção da Arqueologia no mercado de trabalho atual
Num passado não tão distante, se voltarmos à transição dos séculos XVIII e XIX, o cenário socioeconômico europeu atingia o ápice de mudanças substanciais para o entendimento de suas estruturas de classes. Foi nesse período que o filósofo Karl Marx estudou esta sociedade e seus pormenores. Nela percebeu que essas estruturas estavam bem definidas, como bem ilustrada muitos anos depois no Folheto do Union of Russian Socialists, a pirâmide das divisões de classes[1]. O seu pensamento e a sua obra não era pra ser, ademais, uma ideologia, mas vários apontamentos políticos, sociais e econômicos da época e, sem dúvida, uma das leituras da realidade mais bem elaboradas já vistas, com sua respectiva teoria resolutiva pró-trabalhadora.
Assim como os outros países, o Brasil teve seus desdobramentos e sua história socioeconômica própria, suas feridas próprias e suas conquistas. É importante analisarmos de maneira particular todo o caminho que trouxe o nosso país a essa conjuntura política e trabalhista atual, como a Arqueologia se encaixa nesse panorama, onde estamos, como estamos e o que futuro queremos para a profissão.
O território brasileiro é ocupado a pelo menos 40.000 anos e somente em 1500, foi saqueado por europeus e suas populações dizimadas e/ou escravizadas, seja compulsoriamente, seja psicologicamente. A história pós-contato é sangrenta, hostil e, acima de tudo, de subjugação. A partir daí, o Brasil deixa de ser o país dos mais de 8 milhões de nativos ameríndios e passa a ser o Brasil colônia dos europeus que aqui se instalaram. Todas as formas de conhecimento sobre este período são encontradas de duas formas: textos escritos por missionários, exploradores e documentos de governo ou por pesquisas arqueológicas. Veja que por este viés, o papel do arqueólogo é bem mais que licenciar obras, realizar pesquisas acadêmicas e produzir artigos em grandes revistas ou periódicos, mas de evidenciar, legitimar e trazer à superfície da sociedade, conhecimento sobre os povos originários deste território. Significa evidenciar a história não-escrita e escrever sobre o outro lado da prosa.
O país seguiu os anos subsequentes tendo os recursos naturais explorados, as terras invadidas e delimitadas do litoral ao interior e a cada avanço colonialista, marcas eram impressas no modo de vida e na forma de pensar das pessoas que aqui estavam. Entenda que as sesmarias tinham o objetivo de trazer parte da sociedade portuguesa a fim de prosperar naquela nova terra. Mas quais eram as relações de trabalho? Como essa nova sociedade se estabeleceu? Quem era a mão-de-obra?
Nessas novas relações que se estabeleciam no Brasil, é importante compreender este recorte porque foi a partir daqui que os maiores estigmas do pensamento atual e até mesmo da forma como se relaciona com o trabalho em si é compreendida. Além dos indígenas escravizados ou catequizados (outra maneira de violar psicologicamente um indivíduo), os povos africanos foram trazidos ao Brasil como mão-de-obra escrava (e assumiam uma posição ainda mais marginalizada neste processo). As relações eram simples, existiam as nobres famílias europeias, igreja, militares e governo, que detinham as terras e o controle do país, enquanto exploravam a terra e todos os recursos que nela existiam. Quem realizava o trabalho eram as populações que estavam compulsoriamente sob seu controle, indígenas e africanos. A miscigenação da qual se fala atualmente, é pela mistura genética e pelo consequente emaranhado de culturas que resistiram a todo esse processo. No quesito trabalhista, o que existia era exploração do trabalho e nenhuma valorização ao indivíduo.
Quando não se valoriza o indivíduo, mais difícil é valorizar o trabalho que é realizado. É muito difícil para as pessoas assimilarem a tênue camada entre as relações sociais do passado com as do presente. Entretanto, com esforço, é fácil entender porquê hoje em dia um indivíduo paga 5.000 reais num smartphone, mas acha absurdo pagar 150 reais para o técnico que conserta a tela do seu aparelho quando ela danifica. Esse é um exemplo, de muitos outros, claro. A não-valorização da força de trabalho, mas sim do produto, age diretamente nas relações de trabalho e na valoração das profissões e nos processos regulamentares em que estão inseridas.
O trabalho e a forma de o valorar estão longe de serem atingidos ainda, uma vez que temos disparidades no mercado de trabalho, onde não uma régua exata de quem são os agentes participativos ou como a economia é estabelecida. A título de exemplo, um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV), com base nos dados da PNAD Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra um estudo com trabalhadores com ensino superior do setor privado e suas proporções salariais ao longo do segundo trimestre de 2023. Dentre as informações obtidas no levantamento, é possível observar a disparidade dos rendimentos médios da profissão com maior salário (médicos especialistas – R$ 18.475) e menor salário (professores do ensino pré-escolar – R$ 2.285)[2].
Em estudos como esse, profissões não regularizadas, embora regulamentadas, não estão sequer inseridos. A Arqueologia segue sendo invisibilizada das discussões trabalhistas porque ainda estamos no escuro das informações e ao longe das discussões sistematizadas para maior qualidade de vida e direito a garantias básicas de um trabalhador. Mas de quais garantias e direitos básicos estamos falando? Em tese, para o sistema de Governo, que tipo de profissional é o arqueólogo? Quais os caminhos para avançarmos? Num próximo texto veremos essas questões de forma detalhada.
[1] “O folheto russo inspirou várias versões, como a Pirâmide do Sistema Capitalista do Jornal Industrial Worker, publicada em 1911. A nova versão traz algumas mudanças, mas mantém a sua crítica as estruturas de poder” (Disponível em https://nanquim.com.br/piramide-do-sistema-capitalista/. Acessado em 20/10/2023).
[2] Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2023/10/veja-os-melhores-e-os-piores-salarios-das-profissoes-com-ensino-superior.shtml#top-signup-close-bf. Acessado em: 19/10/2023.
Lucas Silva
Atualmente presta serviços de consultoria arqueológica em projetos de licenciamento ambiental pelo país. É mestre em Arqueologia pela UFPI e integra a Comissão Geral Sindical, na subcomissão de Planejamento.
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